Sem medo do coronavírus

·         Victor Grein Neto

Estou há quase 4 meses em quarentena, mas não tenho muito medo de ser contaminado. Tanto, que ando passeando por aí, distâncias curtas, pelo Paraná e Santa Catarina, em cidades onde residi ou convivi. Às vezes sozinho, em outras ocasiões na companhia da esposa, filhos, netos, amigos, genros, noras, primos, sobrinhos, enteados. Ou com saudades de meu pai, mãe, irmão, avós, tios. 

Estive em Londrina. Fui no bar do Paulista com amigos, caminhei no Zerão e Lago Igapó, andei no Calçadão, fui ver um jogo do Londrina (do qual tenho o maior orgulho em ter apelidado de Tubarão) no Estádio do Café, fui no Mercado Shangri-lá, assisti a uma apresentação da Orquestra Sinfônica no Cine-Teatro Ouro Verde.

Praias? Caminhei pela Beira-Rio em Itajaí, fui comer pastéis de camarão no Mercado Público, desfrutei das belas paisagens no caminho para Cabeçudas. Fui em Balneário Camboriú, Itapema e Navegantes.

Em Curitiba, passei pela Boca Maldita, andei pela rua XV, fui na Biblioteca Pública, assisti a um filme no cine Passeio, tomei um chope na rua Itupava, almocei em Santa Felicidade. E era domingo e fui na feira do Largo da Ordem. Era também época do festival de teatro e fui ver uma peça no Teatro Guaira e outra no Teatro Positivo.

Em Ortigueira, visitei a nova Klabin e comprei mel, cachaça e gim. E deu rima!

Em Palmeira, caminhei pela rua Conceição, passei pelo Colégio D. Alberto Gonçalves (onde concluí o ginásio há 60 anos),comprei queijo Porongo – ou Porungo, como eles dizem.

Em Ponta Grossa, tomei cerveja e ouvi música no Botequim Original, subi e desci as ruas do centro, passei pela faculdade onde me formei há 50 anos. Tinha uma apresentação artística no Cine Ópera e eu fui ver.

Em Teixeira Soares, tive o prazer de reviver a fazenda do meu saudoso avô, o Ribeirão Bonito, com a bodega do Aleixo, as estradinhas rurais, as velhas revistas sempre relidas.

Em Rolândia, passei pelo local onde funcionava o Cine Rolândia (onde assisti a um trailer de filme proibido para 18 anos, eu com 13), passeei pela Avenida Interventor Manoel  Ribas, revi a estátua de Roland (que eu vi inaugurar quando tinha esses 13 anos).

Em Campina Grande do Sul, passei pelo jornal de minha filha e genro, o União e comprei caqui. Lembrei-me das chácaras Olhos d´Água, onde tive uma.

Em Apucarana caminhei à noite em torno da grande praça da Catedral, com seus bares e lanchonetes.

Em Santa Isabel do Ivaí, senti de novo o “areião” do seu solo e me lembrei da agência do Bamerindus que meu pai gerenciou.

Em Antonina admirei os velhos casarões, tomei uma cerveja na Ponta da Pita, comprei bala de banana.

Em Morretes, saboreei um barreado no Ponte Velha.

Não tenho medo do coronavírus. Fecho os olhos e forço a memória. É como um live do qual desfruto prazerosamente.